LOJ entrevista, Orcelei Dalla Barba

LOJ entrevista, Orcelei Dalla Barba

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Ex prefeito responde ao LOJ perguntas que tem tudo a ver com o momento atual das pequenas comunidades, ainda agrária, pulverizada nas periferias do país:

– O que o senhor teria a dizer sobre o futuro, como será, sobre a sua comunidade, conseguiria desenhar algumas imagens das nossas comunidades?
– Porque nossas associações de lideranças locais, no transcorrer de suas histórias, tem apresentado um resultado tão pífio às suas próprias comunidades?
-Como o senhor vê o papel atual das atividades produtivas locais, tanto na área urbana, quanto na área rural e o futuro para estas em nossa região?
-Pode hoje o gestor ser um bom gestor se ele não tiver a capacidade de ler o que está acontecendo e apresentar capacidades para conduzir sua empresa, à sociedade para as ‘novas pastagens’ como se refere à Bíblia?
-Viveremos um novo êxodo? De que forma?
-Hoje, o que é grave para as nossas comunidades, não só aqui, mas na grande maioria dos pequenos municípios do país?
-Em que os governo federal e estadual pioram à vida de nossas comunidades?
-Que papel terá a mobilidade, a nova geografia na vida de nossas famílias?
-O que os nossos políticos estão fazendo para adequarem-se às novas realidades que nos arrombam a porta, todas as portas?

O Jornal Liberdade entrevista, o secretário de Administração e ex-prefeito de Mato Queimado, Orcelei Dalla Barba:

L – Prefeito, Orcelei, o número atual, mais a perspectiva futura sobre o número de moradores em um município é algo importante a ser considerado em qualquer manifestação de cunho político. Seja no âmbito social, seja no âmbito de prestação de serviço, de investimentos…. Portanto, se o senhor puder me dizer como vem se comportando estes números em seu município, Mato Queimado?

Orcelei Dalla Barba – Quando por ocasião do processo de emancipação do município, há cerca de 21 a 22 anos, tivemos que fazer todo um recenseamento sobre todas as propriedades e uma descrição o mais detalhada o possível da vida econômica de cada família.
Em relação a àquela época, Sartori, hoje perdemos pelo menos 80% dos produtores de leite e, 100% dos produtores de suínos.
A produção de suínos a que me refiro, é àqueles que além da produção para o consumo, ainda vendiam o excedente para fora, para outros municípios.
Ainda temos uns que criam suínos, mas praticamente todos só para o consumo familiar, local.
Isso é um desastre.
Também desde lá, Mato Queimado que é um município com área geográfica pequena, fechamos 3 escolas no interior.
Também perdemos de 20% a 25% de nossa população no geral, apesar dos esforços em todos os sentidos do poder público em buscar segurar às pessoas aqui.
Antes a população que era economicamente produtiva, ou seja, àquela capaz de produzir renda sem o auxílio de outra, passou a ser uma geração ou que precisa ser cuidada ou que só produz com a ajuda de outra pessoa. Como por exemplo, uma pessoa de mais idade ela ainda pode produzir, mas necessita de alguém que o ampare, o auxilie na execução de uma tarefa.
Se antes tínhamos uma população ativa, produtora de riqueza, hoje isso se inverteu e a grande maioria passou a ser uma geração de pessoas que precisa ser cuidada.
Inverteu-se a situação. Tornamo-nos a cada dia um município de velhos.
Da população total de Mato Queimado, não temos mais do que mil com plena capacidade ativa de trabalho.
Ainda temos para ajudar a piorar o quadro, a quantidade de leis e exigências de todo tipo sobre tudo o que é ou possa ser produzido no campo que é de onde vem a nossa principal riqueza.
Nem bem o agricultor se ajusta a uma nova orientação e já tem a certeza que no dia seguinte virá outra a qual se não se adequar, terá que suspender e até abandonar sua atividade.
Isso acontece muito e inclusive levando a um desespero as famílias que muitas vezes foram motivados até pelo próprio governo, por sindicatos, …. ou políticos locais a desenvolver uma determinada atividade. De lá, o produtor investe os poucos recursos que tem, contratam empréstimos em bancos, dedicam esforços que já nem mais dispõem e logo lá adiante obrigam-se a interromper seu negócio pela inviabilidade de dar continuidade àquele projeto pois, nestes casos, a influência de fatores externos, como a legislação excessivamente dinâmica, as exigências exageradas da Saúde sem considerar as peculiaridades e limitações locais, o peso da prfeitura para à população…É desumano o quadro, muito desumano.

L – Em que os governo federal e estadual pioram à vida de nossas comunidades?

Orcelei – As leis não são criadas por pessoas, Sartori, que conhecem a realidade local. Mas por pessoas em escritórios das grandes cidades, por políticos que tem interesse em suas carreiras tão somente ou em resultados eleitorais, não se preocupam com o homem, não se preocupam de fato como deveriam com o ser humano. E a gente não tem nem sabe como reverter este quadro tão agressivo e violento.
A cada tempo, são sindicatos limitando jornadas de trabalho, estipulando condições, espezinhando tudo e procurando buscar nos mínimos detalhes alguma inadequação as leis que ninguém sabe de tantas que já existem e, ou criam a cada instante e ninguém suporta mais, ninguém quer mais trabalhar, ninguém quer mais saber de aprender, acabou….. enfim, o ser humano toma ciência que a evolução parece que cada vez mais o torna escravo.

L – O que o senhor teria a dizer sobre o futuro, como será, sobre a sua comunidade, conseguiria desenhar algumas imagens das nossas comunidades?

Orcelei – Não quero nem pensar; não quero nem pensar…. não vai muito tempo, não vai muito tempo…
É muito difícil fazer uma previsão, apregoar ânimo diante do quadro que vivemos, do quadro que se vê.
Claro, como tu disse, pode que um fator alheio, externo, possa vir a alterar o atual quadro, como é o pleito de uma ponte ligando à região à Argentina ou, a quase utópica vinda de uma grande empresa para a região, mas a experiência nos deixa pouca esperança que isso venha a acontecer. Em pelo menos nos próximos 25 a 30 anos…

L – Caminhamos para uma espécie de aniquilamento ou ‘amarelão’ de nossas cidades, de um limpa-campo de humanos, coisa assim?

Orcelei – Tudo nos leva a crer que sim. Que no futuro, dentro de até 20 a 25 anos, teremos praticamente só idosos, um pouco de crianças e a população cada vez mais reduzida em nossos municípios, na maioria deles.
Principalmente o nosso onde a geografia não nos favorece muito.
Vocês, em São Miguel ainda tem uma situação bastante diferenciada, favorável ao crescimento..
L – Viveremos uma espécie de êxodo, para regiões de economia mais dinâmica, litoral e grandes centros urbanos ou de parques industriais….?
Resp.: Pg 05
Orcelei, Secretário de Administração – Já estamos vivendo.
Se você considerar a quantidade de pessoas aqui das Missões que se deslocaram para as praias, de Santa Catarina e daqui do Estado, são mais de 3 mil. Todas levando recursos que foram gasto lá, excedente que deveria e poderia serem gastos aqui.
No entanto, não temos algo suficiente para reter ou promover o sentido inverso deste fluxo de capital como por exemplo, termos algo aqui que pudesse atrair o povo de lá, àquele que busca um lugar tranquilo para passar férias, que não gosta de agitação. Nossos investimentos no Turismo ainda é primata. Praticamente exploramos e ainda muito mal o que fora feito há mais de dois séculos por outros povos.

L – Porque nossas associações de lideranças locais, no transcorrer de suas histórias, tem apresentado resultados tão pífio às suas próprias comunidades?

Orcelei – Não temos força política, Sartori. Por isso não temos logrado êxito. Nossas associações, como AMM, DETUR e outras, tem sim se esforçado e muito, até melhorado em suas reivindicações. Prova disso é o movimento que vem sendo feito no sentido de se conseguir produzir fatos concretos nas diversas formas de capitalização das rotas com países vizinhos. Mas o que temos?…
Conversa, conversa e só conversa. Até que algo aconteça de fato, que seja construído que seja uma primeira parte, não temos é nada.

L –Nunca tinha ouvido falar que temos “pouca” força política. Isso me surpreende. Não só pelo fato saber disso, mas pelo fato de haver sido gasto tanto tempo e recursos atrás de uma produção que agora se sabe que as chances são e eram bem pequenas. Também acho que em todos estes anos, uma outra estratégia deveria ter sido buscada, não?
Orcelei D. Barba – Concordo contigo. Mas você tem que considerar que o poder de comandar as associações, não raras vezes, passam pela influência de municípios mais apoderados. E são eles que tem o poder de influência maior. Dependemos deles para tudo e, se estes não conseguirem impor as demandas de suas áreas de influências, afundamos todos juntos.
Mas sei que esta explicação não basta.
A verdade é que temos um só deputado, o Loureiro, que luta de todas as formas mas não tem sido o suficiente. E, outros deputados quando vem para a região, é para fazer inserções rápidas, depois vão-se para suas áreas onde tem seu maior peso de votos. Isso não devia ser assim.

L –Mas já tivemos tempo em que a região teve pelo menos dois deputados?
Orcelei – Oriundos de que município mesmo?..
È o que te falei antes…
Hoje, estamos capenga.

Liberdade – Hoje, o que é grave para as nossas comunidades, não só aqui, mas na grande maioria dos pequenos municípios do país?
Orcelei – Ex prefeito de Mato Queimado: Nesta análise e visão a que nos referimos, acho que uma das piores é termos um gestor seja na atividade privada ou na atividade pública, incapaz de ler estes sinais de mudanças a que te referistes tão bem.
Se ele não conseguir isso, por algum motivo, ele terá enormes dificuldades de fazer algo produtivo para sua comunidade, de fazer a diferença.
Isso não quer dizer que ele não possa ser um bom prefeito, nada a ver, mas hoje já adentramos para um processo de profundas transformações principalmente nas periferias do país. Cito por exemplo, como tu tem alertado no Liberdade, os efeitos da Rede Mundial de Computadores, a internet na vida das pessoas; as mudanças que já promovem para a atividade produtiva; a mobilidade das pessoas em busca de novas oportunidades de trabalho, acesso à regiões com tecnologias mais avançadas e locais de entretenimento e de cultura; ………..
Todos começamos a notar que a venda à balcão, àquela em que a mercadoria estará posta no antigo sistema presencial, de balcão, irá acabar ou, pelo menos reduzir drasticamente. E não temos como nos opor a isso. A forma de fazermos o comércio irá mudar; já está mudando.
Daí que será fundamental uma nova forma de tributação, inclusive para sustentação destas comunidades, como as nossas onde, passaremos a ser quase que completamente dependentes do que virá desta forma, de fora.
Isso não quer dizer que não se continuará a produzir em nossos municípios, pelo contrário. Mas o sistema de produção, como o agronegócio, a pecuária de confinamento e o avanço de tecnologias e da produtividade, irá promover – salvo se isso vier a inverter -, num limpa espaço, de pessoas, extraordinário.

LOJ – Uma reforma agrária, estipulação de limites de área para propriedade rural por exemplo. Respeitando as características e interesse de cada município. Seria uma saída para se inverter esta tendência?
Orcelei – Sim, mas duvido que se tenha força e desejo em se contrariar os grandes interesses que exploram o país…mudar o sistema.
Tem a outra questão, também importante e que tu levantestes, a perda de vínculo das famílias com o seu passado:
Hoje àquela pessoa que passou sua vida, constituiu família e criou seus filhos em determinado local, forçado a ter que ir-se para a cidade, se logo depois retornar para relembrar do lugar onde nasceu, não verá além do trilho provável da estrada e nada mais. Tudo estará mudado, os vestígios não existirão mais, nem àquilo que um dia ele conheceu.
Perde-se as referências, cai-se fácil daí nas propostas salvacionistas e aloca-se para além morte qualquer esperança e, a depressão aumenta….
O homem torna-se objeto, algo manipulável. A vida, os desejos e anseios humanos passam a um terceiro, último plano.

L – Como Mato Queimado prepara-se para esta nova realidade?
Orcelei – Não se prepara, ainda não. Estamos em choque. Mas ainda assim acho que estamos adiante de muitos, uma vez que se tal leitura ainda não é feita, imaginem a situação… onde está sendo atirado o povo.
Aqui ainda temos um dos PIBs mais altos do país e enfrentamos esta situação..

L – Nosso sistema político, nossas escolas e universidades não despertaram ainda para esta situação…. nada ou quase nada se vê a respeito, onde iremos parar?
Orcelei – Creio que nem iremos parar. Iremos perder e, a medida que continuaremos atípico ou incapaz de fazer estas leituras e começar a agir, acontecerá o que vem acontecendo: perderemos nossos jovens, nossa capacidade ativa de trabalho; nossa criatividade inovadora, nossa capacidade de atrair investimentos, nossas melhores oportunidades ou continuará a serem inexploradas ou, morrendo.
Do jeito que temos conduzido nossa política, da forma e qualificação da grande maioria de nosso quadro político, do mais alto cargo ao mais simples no país como um todo, nada nos sugere além do fortalecimento de nossa situação de dependência e de mais miséria em relação a outros países mais desenvolvidos ou que venham conseguindo caminhar em direção a este processo.
Mais do que nunca devemos ter a responsabilidade de admitir que a competência, a qualificação, a qualidade da educação, o atendimento de qualidade na Saúde, a falta de incentivo à Escola de qualidade e a meritocracia……. Precisam voltar a ter importância. Isso é urgente.
Passou e vai tarde todo o romantismo do “não sabe escrever o nome, mas pode ser deputado”; não sabe nada, mas pode ser um presidente de uma multinacional.
Até pode ser, desde que não tenha uma alma que dependa da decisão dela pois, mesmo que venha a ser competente – e isso é sempre possível -, as chances de que possa a não desempenhar bem sua função é cada vez menor sem o estudo. E isso precisa ser considerado e valorizado pela população.
Acho, Sartori, que na função pública, um mandato, no máximo dois e depois a pessoa deve sim dar lugar a outro. Dar-se por conta que se tinha que fazer alguma coisa, teve a oportunidade e se não fez, não fará ou, dificilmente fará.
Infelizmente, ainda prevalece em alguns lugares o poder econômico, o interesse pessoal ou de grupos sobre o interesse ou o que é de fato bom e necessário para a coletividade. Muitas figuras ainda conseguem impor ou se impor por cima do próprio povo, subjugando-o até a exaustão, visando tão somente os interesses particulares, ideológicos ou partidários tão somente. Isso deve ainda ser considerado crime.