A região onde hoje se encontra o Estado do Rio Grande do Sul era habitada por dezenas de nações indígenas a milhares de anos. Com a chegada de colonizadores portugueses e espanhóis na América, todo este nosso território pertencia aos espanhóis, devido ao Tratado de Tordesilhas, de 1494. Muitos dos índios foram escravizados e obrigados a trabalhar em diversos cantos do país.

Desde 1609, Padres Jesuítas, missionários da Companhia de Jesus deram início a um trabalho de evangelização dos índios da vasta Província do Paraguai, boa parte de seu território estava em nosso estado. Tiveram grande sucesso junto aos Guaranis, que habitavam a região, principalmente os vales dos rios, onde a caça e a pesca eram mais abundantes. Os guaranis coletavam diversos tipos de frutos e raízes e cultivavam principalmente o milho e o aipim, mas também plantavam feijão, abobora e batata. Suas moradias tinham uma estrutura de madeira coberta com fibras vegetais, em geral de base circular. Essas habitações denominadas de ocas eram habitadas por diversas famílias com grau de parentesco entre si.

O interesse do Império Espanhol era tomar posse das terras da Bacia Platina, como objetivo a conversão e colonização dos indígenas ao cristianismo. Por ordem da coroa é instalada a primeira Redução, a de San Ignacio Guazu em 1609 onde hoje é o Paraguai.

Num primeiro período os jesuítas expandiram sua evangelização para onde hoje é o estado do Paraná (Guairá), Mato Grosso do Sul (Itatim), chegando à região do Tape (Rio Grande do Sul) em 1626. Aqui fundam 18 reduções naquela fase, sendo a primeira São Nicolau dia 3 de maio (primeira querência do Rio Grande) fundado pelo Padre Roque Gonzalez de Santa Cruz. Estas foram atacadas pelos Bandeirantes em busca de escravos para suas lavouras. Em 1637 acontece o fim das reduções iniciais, momento em que migraram para o outro lado do rio Uruguai. Calcula-se que os bandeirantes foram responsáveis pelo desaparecimento de 600 mil índios guaranis – 300 mil sendo levados como escravos e 300 mil mortos nos ataques.

Deixaram no território do Rio Grande do Sul o gado que havia sido introduzido em 1634 pelo jesuíta Cristóvão de Mendonza e que foi o início do “modo de ser” do povo gaúcho, pois foi a base para os períodos das estâncias, tropeirismo, charqueadas e pecuária do território até o início do século XX. Este gado multiplicou-se e tornou-se um dos principais motivos para o retorno dos padres jesuítas 40 anos depois.

Em 1641 os bandeirantes formaram um grande ataque em busca de índios cristãos para levarem como escravos, porém jesuítas e guaranis se organizaram e obtiveram a maior de todas as vitórias sobre as forças paulistas que não mais atacaram as Missões.

Em 1680 os portugueses fundam a Colônia de Sacramento em pleno território espanhol. Com este fato os jesuítas espanhóis, em 1682 retornam ao lado esquerdo do rio Uruguai e começam os Sete Povos das Missões; fundam a primeira redução jesuítica do Rio Grande do Sul: São Francisco de Borja, atualmente a cidade de São Borja.

Os Sete Povos fazem parte da segunda fase missioneira, onde se formam as reduções e que seriam os primeiros núcleos urbanos do RS. O primeiro povoado da segunda fase foi São Francisco de Borja (1682), seguido de São Nicolau (no mesmo local da primeira fase), São Miguel Arcanjo e São Luiz Gonzaga, todas em 1687, São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e o último dos Sete, Santo Ângelo Custódio (1706).

O segundo período jesuítico foi muito próspero. Grandes escritores do mundo falaram das Missões: Padre Lugon disse que foi a mais original das sociedades já realizadas. Paul Lafargue, em conjunto com Bernstein, Kautsky e Plekhanov explicam que o projeto constituiu um das experiências mais extraordinárias, que jamais tiveram outro lugar. Charlevoix e Muratori reconheceram-na como um modelo sem precedentes de sociedade cristã. A revista Lês Lettres Edificantes et Curieuses, dirigida pelos jesuítas, comparava os guaranis aos primeiros cristãos e descrevia suas comunidades como a realização ideal do cristianismo.
Voltaire afirmou que o projeto Jesuítico-Guarani foi um “triunfo da humanidade”.
Montesquieu chamou de ‘Primeiro estado industrial da América’. O Abade Carbonel chamou de “coletivismo espontâneo”. Pablo Hernandez na Organización Social de las Doctrinas Guaranies, escreveu que o maravilhoso surge a cada passo. O filósofo Rayal escreveu: “O mundo novo que estamos procurando realizar não pode menosprezar a lição fornecida”.

Os principais artigos exportados pelas reduções eram a erva-mate, o fumo, o algodão, o açúcar, os tecidos de algodão, os bordados, as rendas, os objetos trabalhados em torno, mesas, armários, e baús de madeiras preciosas, esculturas, peles, curtumes e arreios de couro, rosários e escapulários, mel, frutas de todas as espécies, cavalos, mulas e carneiros, assim como o excedente de diversas indústrias, como a de instrumentos musicais. Todos eram vendidos à Europa e principais cidades da América. Importavam produtos manufaturados e metais. Toda a produção era orientada para a satisfação das necessidades do todo.

Na mesma época do “esplendor” missioneiro, a colonização portuguesa se iniciava na região litorânea do Rio Grande do Sul com a fundação da cidade de Rio Grande pelo Brigadeiro Silva Paes em 1737. A cidade de Porto Alegre foi fundada em 1752.

O Tratado de Madrid foi um tratado firmado na capital espanhola entre os reis João V de Portugal e Fernando VI de Espanha, em 13 de Janeiro de 1750, para definir os limites entre as respectivas colônias sul-americanas, pondo fim assim às disputas por terras. O objetivo do tratado era substituir o Tratado Tordesilhas, que já não era mais respeitado na prática. Pelo tratado, ambas as partes reconheciam ter violado o Tratado de Tordesilhas na América e concordavam que, a partir de então, os limites deste tratado se sobreporiam aos limites anteriores. As negociações basearam-se no chamado Mapa das Cortes, privilegiando a utilização de rios e montanhas para demarcação dos limites. O diploma consagrou o princípio do direito privado romano do uti possidetis, ita possideatis (quem possui de fato, deve possuir de direito), delineando os contornos aproximados do Brasil de hoje.
De acordo com o Tratado de Madri a região dos Sete Povos das Missões que era da Espanha, deveria ser entregue aos portugueses. Em troca, a Espanha ficaria com a Colônia do Sacramento.
Quando os portugueses foram tomar posse do local, em 1754, houve conflito militar entre esses e os índios, que não aceitaram deixar suas terras. Teve início a Guerra Guaranítica.
Tropas espanholas também entraram na batalha, ao lado dos portugueses e combateram os indígenas na tentativa de expulsá-los das terras, fazendo cumprir o Tratado de Madri.
A Guerra durou dois anos (até 1756) e foi onde aparece a figura do líder Sepé Tiarajú, morto em 07 de fevereiro de 1756. Sepé é reconhecido por Lei como Herói Gaúcho e também Herói da Pátria Brasileira e sempre foi considerado um santo popular, tanto que de seu nome advém o nome do município de São Sepé.
Com a derrota os Guaranis e Jesuítas são expulsos para o outro lado do rio Uruguai e passam a viver junto a outras reduções onde hoje é Missiones e Corrientes na Argentina. Em 1761 com o Destrato Del Pardo Retornam para o lado gaúcho do território, porém em 1767 com efetivação em 1768 os jesuítas foram expulsos de todas as terras espanholas, terminando definitivamente o projeto Jesuítico-Guarani.
Em 1777 é assinado um novo tratado de Santo Ildefonso, que tenta definir os limites entre terras de Espanha e Portugal.
Em 1801, José Borges do Canto, Gabriel Ribeiro de Almeida e Manuel Santos Pedroso Filho conquistam as Missões, tomando São Miguel e outros Povos. A expedição portuguesa era composta por milicianos voluntários e recrutada junto à população de Rio Pardo. A história deste episódio é fantástica. Borges do Canto era um desertor dos dragões portugueses e contrabandista, que trocou sua anistia pela conquista das Missões. Gabriel Ribeiro de Almeida e Manoel dos Santos Pedroso sabiam falar o idioma guarani e tiveram a cooperação dos indígenas.
Em 1821 o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire visita as Missões e deixa importantes registros.
Em 1828 Frutuoso Rivera, retoma as Missões para o mundo espanhol e funda em nome da Argentina, a Província das Missões Orientais do Uruguai que dura apenas um ano, pois é trocada pela libertação da Província Cisplatina (República Oriental do Uruguai de hoje). Em sua saída Rivera leva sessenta carretas com o que ainda havia de valor e boa parte dos índios missioneiros que ali restavam.

A origem do Gaúcho, do Churrasco e do Chimarrão.
O gaúcho é o tipo característico da campanha. É o nome que se dá ao homem do campo na região dos pampas e, por extensão, aos nascidos no Rio Grande do Sul. O termo gaúcho passou a se generalizar a partir de 1800. Até então, os nascidos no nosso Estado eram chamados continentinos ou rio-grandenses.
O gaúcho surgiu da miscigenação entre o índio, o espanhol e o português, que viviam livres cuidando do gado no pampa gaúcho.
Por estar ligado ao campo, tornou-se hábil cavaleiro, manejador do laço e da boleadeira. O gaúcho era livre, sem patrão e sem lei. Antigamente, os gaúchos não eram bem vistos, pois Inúmeros defeitos lhes eram apontados, tais como: ladrões, homens irresponsáveis, malandros, perturbadores da paz.
Em 1820, o francês Augusto Saint-Hilaire assim descreveu o gaúcho: “homem que vivia da carne, morava em ranchos, andava a cavalo e com os hábitos do chimarrão e do fumo. Os gaúchos eram homens de maus costumes, que viviam andando pelas fronteiras. Eram ainda os gaudérios, que andavam sós, sem chefes, sem leis, sem polícia, com ideias vulgares, gostavam de dinheiro para jogar corridas de cancha reta”.

O escritor Érico Veríssimo na trilogia “O Tempo e o Vento” descreve o gaúcho como herói, símbolo do homem e da sociedade do Rio Grande do Sul. O romance inicia falando do índio Pedro Missioneiro que conhece Ana Terra, filha de tropeiros paulistas de Sorocaba e estabelecidos na região de Rio Pardo.
Com a chegada do “aramado” para demarcar as Estâncias, o estabelecimento das fazendas de gado e a modificação da estrutura de trabalho, o gaúcho perdeu seus hábitos nômades. Integrado à sociedade rural como trabalhador especializado, passou a ser o peão das estâncias. O reconhecimento de sua habilidade de campeiro e de sua bravura na guerra fez com que o termo “gaúcho” perdesse a conotação pejorativa.
Depois da Revolução Farroupilha, o gaúcho passou a ser considerado homem digno, bravo, destemido e patriota.
O gaúcho é definido pela literatura, como um indivíduo machista, altivo, irreverente, guerreiro, legítimo, é o “centauro dos pampas”. Entre nós, gaúcho é aquele que vive do trabalho pastoril, nas lides com gado.
O gaúcho de hoje é fruto da contribuição do índio, do negro, do português, do espanhol, do alemão, do italiano e tantos outros povos, que para cá vieram construir o Rio Grande com uma vida melhor. Por isso, aos poucos o termo gaúcho passou a identificar os filhos do Rio Grande do Sul. O adjetivo se estende ao que é referente a esses homens da vida pastoril, como vida gaúcha, dança gaúcha.

O povo gaúcho valoriza muito suas tradições, exalta a coragem e a bravura de seus antepassados, canta seu apego à terra, seu amor à liberdade, motivando assim o surgimento de uma literatura gauchesca.

Para suportar o frio, o gaúcho tomava logo cedo muitas cuias de chimarrão. A bebida foi herdada do povo guarani e hoje remete diretamente à região. O mate é uma bebida quente, feito à base de erva-mate refinada, o que lhe confere um gosto amargo.

O chimarrão, a bebida preferida, é o símbolo da hospitalidade e da amizade. No Brasil, atualmente, apesar de ser bastante consumido no Paraná, em Santa Catarina, no Mato Grosso e Mato Grosso Sul, entre outros, o chimarrão é notadamente conhecido como um costume gaúcho, do Rio Grande do Sul.
O alimento predileto do gaúcho é o churrasco e o arroz-de-carreteiro.

O churrasco gaúcho nasceu em comunidades indígenas catequizadas por jesuítas, no século 17. A carne bovina era assada em estacas de madeira fincadas na terra e temperada com sal grosso.
A influência do guarani também é percebida no preparo do puchero, uma sopa encorpada, cozida com carne e legumes.
Os demais pratos da culinária gaúcha também remontam ao improviso do trabalhador gaúcho e ao tropeirismo. Em várias regiões do Estado é servido o feijão mexido, preparado com mandioca, o quibebe; à base de abóbora; e a carne seca com mandioca. O pinhão também é bastante consumido, principalmente no inverno. A fruta seca é cozida ou assada e pode ser consumida pura ou em forma de paçoca.

Quando o gaúcho se veste com seus trajes típicos, diz-se que ele está pilchado.

Os gaúchos costumam reunir-se nos Centros de Tradições Gaúchas para cultuar, difundir e propagar a cultura gaúcha, entre as gerações.

 Caminho das Missões e do livro “Pedido de Perdão ao Triunfo da Humanidade” de José Roberto de Oliveira.

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