A Tribo Nômade das Virgens da Dialética – TNdVdD

A Tribo Nômade das Virgens da Dialética – TNdVdD

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-Eu acho este nome meio estranho, não concordo. Podia ser então .. Tribo Nômade dos Corretores”, dos sensores, dos mestre coisa assim…
-Não concordo. Porque não uma referência a elas, tem que ser só a vocês?
A TNdVdD foi formada para dar corpo a uma iniciativa que já tardava em dar fim, definitivamente nos erros, tantos, repetidos, acontecidos na sociedade.
Para tal, os auto-arrolados puros e, as auto-arroladas puras, resolveram se unir e, eliminar de vez, esta desgraceira que ameaçava sua própria sobrevivência.
Sábios de todo tipo, recalcados, puritanos, ansiosas, depressivos e um lote a mais e aqui não denominado, reúnem-se com o objetivo único de purificar o mundo: nas redes sociais em algumas vezes.
Munidos de foice e suásticas, o TNdVdD, parte para a primeira ação:
-Lá vai um, que escreveu errado a palavra cessão. Cessão era com s e ele escreveu com c….
Começa a corrida, pau nele e, enfim, a turma do TNdVdD mata o primeiro.
-Um a menos, este não escreve mais errado. Vai ensinar pro nossos filhos o que não deve, se foi!
Outro membro do T…. grita, lá vai outro, que defende o candidato…..
Corre daqui; corre dali e o bolnomita acaba nas unhas das/dos puritanos.
-Ala ó, outro, este é o do Moro!! (o que faz a pressa!)
Nova corrida, pau nele, pedradas, marretadas e… morto.
Assim, a turma da Tribo Nomade das Virgens da Dialética, não perde por esperar raiar o segundo dia. Afinal, eles são nômades, andam por tudo quanto é canto ver se identificam e corrigem os agora mais desgraçados.
Raia o segundo (dia) e, já se espalham pelas redes, na audição das mídias particulares e nem tanto, a selecionar errados…., erros.
Nem passa duas horas e já há uma lista de novos condenados:
-Este quis dizer…..
-O João da Corte quis ir pra lá, mas…
-A Marivala trocou o i pelo d e aí falou mal do ….
-bzzz, bzzzi
A lista estava se tornando interminável. Era muito serviço, faltava madeira para eliminar tantos, todos pecadores ou, pelo menos haviam pecado agora… e, a solução da T…..era eliminar e deixar só elas/ eles, os puros.
Sei que no sexto dia, um dos puros se depara com alguém plantando mudas fora da linha, já haviam 6 no novo viveiro, imaginem!…. foi apontado, condenado e morto logo alí.
Logo depois, outro que plantara soja sem 2 4 D, mesmo destino.
Também um outro que trocou o filho antes de ligar o computador, mataram a pauladas, na frente do inocente para dar mostras do que acontece com quem peca.
Bem, aos poucos, a pampa, as grotas, os banhadais foram se enchendo de errados, mortos. E, só ficando os bons, os puros, os corretores, sensores como queiram…ou os que ‘não erram’.
Foi, foi que restou só eles. Corrijo, um, que teria se evadido por safado que era, com um livro lá pro alto da montanha….
-Agora, irmãos, do TNdVdD, armados com sua suástica bandeira e de porretes, resolvem superar o último obstáculo. Depois disso, seria tudo perfeito, tudo seria plantado em linha reta, tudo seria escrito sem erro de português, não haveria mais essa de apertar botão errado, de plantar milho sem ser transgênico, era só acabar com o último dos desgraçados e, o paraíso deles se instalaria na terra.
Deixaram para o dia seguinte, seria o dia de grande festa, o último guarani tombaria. Depois até, construiriam uma estátua para ele, o reverenciariam como a um Deus pois, Deus bom é Deus morto (era o lema da irmandade há pouco formada) e, assim, poderia fazer os tão reclamados milagres no meio.
A frente, uma santa comandando a procissão dos poucos salvos deles mesmos.
Começam a galgar o morro em direção à oca onde deveria estar escondido o último dos covardes e considerados como um dos maiores responsáveis pela perdição dos ora – a cacetadas – adormecidos:
Não se sabe se por motivo do cansaço dos últimos tempos, eliminando os errados, mas uma sensação de fraqueza, de vazio, se apoderava daquele grupo que já estava se cansando de si próprio. Tanto que a medida que subiam, um foi descobrindo erro do outro e, só chegaram ao sopé do monte, três.
Chegando à porta do buraco, com voz de serra passando em prego, gritou:
-Oh, tu que te reservas nas trevas deste buraco, venha para fora receber o justo castigo desta guerreira da pureza e dos defensores restantes da moralidade dialética!!
…………………..
-Eu, te ordeno, desgraçado, além de escrever errado, ainda fica denegrindo nossa bunda, digo, banda, imagina e, agora chegou a tua vez, vem receber a machadada!!
………………
-Por dios, será que teremos que entrar aí e te arrancar à força com este panfleto para mata-lo, pecador pecaminoso!
– Tin!….
-Ainda por cima, de medo, troca o ‘sim’ pelo ‘tin’. Saiba que a Tribo Nômade das Virgens da Dialética, àqueles que nunca erraram, vão acabar o serviço, te matando.
-Tin, digo, sim. Má quem é tu, vestida deste jeito, com esta espada a tiracolo… Que fizeram com teu cabelo, reto e banhoso como teu rosto fechado e metido nestas ‘botas de segurança’ como os teus, acaso veio aqui me matar?
Mas é claro. É só olhar para meu cinto e verá quantos que ofenderam rasgando o português, que mandei para lugar pior!
-Ah, sei, nada contra. Mas me parece que vocês estão cansados, pra não dizer virados em trapo, precisando de se alimentar direito, de um pouco de repouso… ficariam com uma fisionomia melhor, talvez até humana e, esta bandeira, esta suástica ridícula, mais parece pau de boiadeiro que espanta piranhas quando perambulam no charco buscando identificar sangue, venham, depois vocês me matam!!
-Pois é…. talvez, mas eu vou te matar. Agora, se tiver um cafezinho, aí não precisaremos acender o fogo!
-Sim, claro, tirem esta carapuça, entrem, sentem, leiam o Liberdade aí… afinal, estou condenado mesmo.
-Mas não é heresia, companheiros?
Que tal darmos só uma lida, uma olhadinha… sabe, o condenado, antes de te matar eu vou te dizer que eu já tava pensando em abandonar esta profissão; de matar os errados…
-É, pode, que seja possível… as vezes a gente acha que eram os errados que eram errados, mas se a gente vê bem, olha bem, corre o risco de até descobrir que no passado tinha uns errinhos,… chifres, frustração, dependente de teta, fez àquilo, sabe… (um calafrio se notou no interior da caverna!).
Silêncio…….
   Parecia que ninguém respirava. Só o vento lá fora uivava como que a chorar trazendo o cheiro do corpo apodrecendo dos errados… até que…
-Mas diz aí companheiros, eu tive pensando, será que nós também não temos nada, um níquel, uma virgulazinha e, se matamos o fotógrafo….Deus, errei!
-Errou duas vezes: ele é o jornalista e falou o nome de Deus com D minúsculo. Merece à morte, mas como tivemos cochichando, resolvemos parar por aqui mesmo e, se o errado aí nos emprestar o jornal, quem sabe a gente possa recomeçar e aprender o que esta palavra sagrada significa:

-d de deuze, ara, mas é deu-se e não era deuze. Logo ele não quis escrever Deus, nem deus, mas deu-se, é que o risquinho tava tão apagado ou é as minhas vistas….bá, mais que bá… matamos um monte…
-Pra fora da caverna, katrefa que aqui dentro de certo tem mais é o errado e, a nós, o diabo que permaneça na função que era o nosso lugar!