Memórias vivas..

Memórias vivas..

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MEMÓRIAS VIVAS

Por SIMONE MEOTTI, Advogada

Há algum tempo li num livro que conta a respeito da fundação do Museu das Missões, localizado no sítio arqueológico São Miguel Arcanjo, na cidade de São Miguel das Missões, que a busca pelas imagens sacras que se encontravam espalhadas pelos arredores da redução após o seu “abandono” não teria sido de um todo tranquila, tendo em vista a resistência apresentada por considerável parte das pessoas que as mantinham sob seus cuidados. E a ideia de ter que as entregar para que pudessem integrar o acervo do museu inevitavelmente gerou descontentamento e sofrimento, já que, com o passar dos anos, tais imagens tornaram-se parte da vida dessas pessoas, seja em suas casas particulares, seja em seus núcleos comunitários.
Ao ler a respeito disso confesso que achei bastante interessante, pois trouxe a lume uma situação sobre a qual nunca havia pensado. Sou daquelas pessoas que gosta de visitar museus e bibliotecas, cuja atmosfera é convidativa à leitura e ao conhecimento histórico. E o Museu das Missões é lindo, de uma riqueza cultural incrível! Mas, quando a gente encontra tudo pronto não imagina os fatos que se sucederam para concretizar a ideia de reunir em um só local todas aquelas imagens e fragmentos reducionais, permitindo, com isso, a visitação pelo público em geral.
Escrevo sobre este assunto porque, dia desses, conversando informalmente com o Sr. Adão Miguel Ferreira, colaborador do Jornal Liberdade, surgiu o relato de o mesmo ter vivenciado esta situação juntamente com seus familiares; pois, segundo conta, a imagem de São Gabriel Arcanjo, que hoje integra o acervo do Museu das Missões, por muitos anos esteve sob os cuidados de sua família, tendo passado de geração para geração, até o momento em que receberam a notícia de que havia uma ordem para que a entregassem a fim de que a mesma pudesse ser exposta em local adequado, assim como aconteceria com todas as demais imagens que estavam sendo resgatadas junto às famílias e comunidades que as mantinham. Acredita que isso foi em meados de 1936/1937.
Lembra que a imagem do arcanjo ficava num altar existente na varanda da casa, juntamente com outras imagens de devoção da avó, porém estas outras não eram oriundas do período reducional.
A casa em que a família vivia localizava-se na “esquina da taipa das ruínas”, segundo suas próprias palavras.
Relata que sua avó, Justina Manoela Ferreira Burgedurf, na época já com mais de 80 anos de idade, chorava muito e se negava a entregar a imagem de São Gabriel ao zelador que a requisitava, Sr. João Hugo Machado, devido ao grande apego e devoção que lhe dedicava. Lembra que seu pai tentava convencê-la, explicando que era uma ordem do governo e que a família teria que obedecer; porém, a mesma não se conformava.
Conta que, tamanho era o carinho e fé que a avó nutria pelo arcanjo Gabriel, representado pela imagem que havia feito parte de praticamente toda a sua vida, que, na ocasião do seu falecimento, o pai do Sr. Adão, Sr. Avelino Manoel Ferreira, pediu autorização ao responsável pelo museu para levar a imagem até o funeral. A imagem do arcanjo foi colocada junto ao caixão no percurso feito de carroça até o cemitério para o sepultamento. Sendo devolvida ao museu logo após o encerramento do cerimonial fúnebre.
Além dessa circunstância, o forte envolvimento das imagens remanescentes do período reducional com a população residente nos arredores da antiga redução fica evidente quando o Sr. Adão nos conta que lembra também de seu pai ir a cavalo até a comunidade de São João Mirim, “lá pros lados de Jóia”, fazer visitas à imagem de Nossa Senhora da Soledade, também chamada de Nossa Senhora das Dores, considerada na época “santa muito milagreira para os criadores de gado”. Diz que o pai levava velas em agradecimento à proteção recebida e que alguns criadores presenteavam a Santa com cabeças de gado, as quais eram entregues para a senhora que era dona da propriedade em que a imagem estava localizada. 
São memórias vivas que merecem ser registradas de alguma maneira para que não se percam com o tempo, para que, ao serem relembradas, façam-nos valorizar tudo aquilo que temos hoje e que não “nasceu” pronto, mas que foi construído aos poucos, envolvendo conflitos de ideias e sentimentos.

 

Quem sabe dia desses o Sr. Adão escreva a respeito, com as suas próprias palavras e com maiores detalhes.

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