Sempre é bom relembrar

Sempre é bom relembrar

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 Ainda ontem andando pela região do interior do nosso município missioneiro – S.M.M. -, pensativo com as dificuldades encontradas nas sobrevivência no campo, me deparei mais uma vez cruzando despercebidamente na frente de uma velha construção abandonada e, chegando mais perto, para analisar a situação das benfeitorias dos prédios, vi que ali ainda existe resquícios de um local que antigamente existia um povo comunitário que desfrutava tanto daquele então dinâmico espaço.

Chegando mais perto, temos àquelas imagens antigas de construções que ao longo do tempo foram se degradando e perdendo seu valor e, passando despercebida se torna algo que o tempo está prestes a fazer desaparecer.

No local ainda resiste a pequena escola, com espaço interno não superior a 30m a 35m² onde não só o padre rezava à missa, bem como servia de local de festividades, como a dança e a briga de facão. As vezes, quando a vela apagava e à noite, o facão era substituído pela foice e depois falava o “schmitão”, espaço construído há pelo menos 3 décadas quando o atual município, de São Miguel das Missões, ainda fazia parte de outro, o município mãe de Santo Ângelo.

Também fazia parte, área de lazer, como cancha-de-bocha, campo para prática de futebol e vôlei e outros, caracterizando ali como espaço importantíssimo para a comunidade local interagir, desenvolver encontros religiosos, familiares…

Também neste local, encontrava-se depositado equipamentos e máquinas de diferentes utilidade destinado ao uso comunitário, na atividade agrícola, tais como: Triturador de milho, panelas, enxada, foice, resfriador para o leite, pulverizador costal, ……. alguns desses acabaram desaparecendo para sempre ou, foram remanejados para outros locais.

Hoje no presente em que vivemos, só restaram estes velhos prédios que com o futuro haverão de cair e desaparecer, uma vez que desde suas construções, até os dias atuais, nunca foram consertados, que dirá conservadas.

 

*A Padaria Noroeste prestigia o LOJ!

 

Mas hoje nos perguntamos: Onde está àquela comunidade ativa que hoje parece não existe mais?

O que será do futuro de nossos interiores, da vida dos nossos vizinhos, amigos, dos vestígios de nossa infância, nossa vida em família e interagindo com famílias, riquezas que vamos perdendo.

Já que recordar é viver novamente, chegamos à conclusão: Se lembrar de antigamente, onde tínhamos torneio de futebol entre comunidades vizinhas, somado com àqueles bailões de interior, da prosa ao pé do ouvido onde, local onde o salão sempre estava cheio e no entorno o povo se deliciava trocando informações e se divertindo.

Ali fora, hoje matagal, à época grama crescia pouco, de tantos amassos e gente amassada pela falta de espaço na pequena sala, contando com muitas diversões e aquelas brigas típicas de final de festas. Lembro até de meu vizinho – o Rodrigo, com um balde de lata onde vários gatos recebiam seu cuidado, dando-lhes uma mamadeira a cada hora e meia para que suprissem a ausência inesperada da mãe..

Se de noite era mais escasso a presença da ‘Gloriosa’ de farda, de dia seguida era convidada a acalmar os ânimos de algum retovado ansioso e movido pela testosterona que lhe fugia pelos remendos das bombachas.

Agora, já não é mais no interior que se vê isso.

Em praticamente todas, no interior, só se vê abandono e solidão total.

A capoeira tomando conta de um local que antigamente era de todos nós.

Todos estes acontecimentos tem grande influência do avanço tecnológico e do sistema de produção, que vem a cada pouco, se modernizando, onde busca-se maior produção por unidade de área e a redução de custos.

Nossos interiores não resistiram por falta de políticas agrícolas adequadas e que por tal, levassem em conta o melhor para a vida de nosso próprio povo.

Veio o lavourão, acabou-se nossos reinos encantados. Nele, no lugar dele, a tal da produtividade, tão necessária…

Onde, em uma pequena fração de área agrícola morava-se e tirava-se o sustento de uma grande família que, com trabalho braçal e troca de serviços entre vizinhos, se gerava riquezas tantas e inestimáveis.

Hoje, praticamente tudo sendo substituído por máquinas cada vez mais eficiente com o propósito de produção de commodities ou mesmo, grandes setores especialistas em produção animal e vegetal.

Para estes pequenos agricultores restando ter que vender sua área de terra para o lindeiro que vem comprando de todos e indo-se colocar em uma parte da cidade onde seu capital consiga lhe oferecer. Daí, grande número destes com a idade, esperam por uma aposentadoria e, a outra parte, tem que achar uma forma de sobreviver.

Caminhando por nossos interiores, ainda vimos alguns que ainda resistem e permanecem no campo.

Alguns destes, sem conseguir evoluir, mesmo assim lá permanecem até o fim. Como que se negando a dar-se por vencido, desafiando uma ameaça que lhe lapida dia após dia.

Por outro lado, parte deles passa a tentar “comer um ao outro”, para atender as novas demandas do sistema.

Não podemos culpar agricultores que compraram a terra dos menores, fazendo eles irem embora para a cidade.

A verdade é que somos todos coordenados por um sistema que força à produção em escala, com uma redução de custos cada vez maior. Somando isso à tecnologia cada vez maior, assim foram desenvolvendo uma competição entre os próprios setores agrícolas, forçando a desaparecer a pequena propriedade.

Também nossa comunidade, Urubucarú /Ataídes, é composta na grande maioria dos casos, de pequenos agricultores e, os mais apoderados, envolvidos com seus objetivos de ganhar mais e mais dinheiro ou atender a seus afazeres, – quando não tentam ainda apagar os últimos vestígios dos remanescentes locais, mostram-se incapazes de motivar à comunidade local, de uma forma ou de outra a construírem para si uma teto por suas cabeças para eventuais encontros comunitários.

Também se soma, pelo número pequeno de votos que a comunidade oferece, o descaso posto do poder público do município que há décadas enrola à comunidade prometendo fazer um galpão que fosse e, nunca, nada acontece.

É triste a realidade que sobra em nossos interiores, onde cada vez um menor número de pessoas se deparam vivendo alí. Espaço em que cada vez se tem menos tempo e, a felicidade vem sendo trocada pela solidão, pelo carro ou máquina a mais bonita e potente.

Chegamos à época que um único agricultor/empresário, será o dono de vastas extensões da terra que até há poucos era de Deus e de todos nós.

Tecnologias robóticas, mecânicas, desde o preparo do solo até a colheita. 

Não somos mais humanos, somos máquinas, infelizes, um a devorar ao outro, a espera que um dia, algo, quem sabe a morte prematura, nos faça parar; pra pensar… no que estamos fazendo com nós mesmos!

                           Jean Sartori     

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